Há um corpo aqui deitado num lençol de lua branca como um rio que não corre esse corpo abandonado deste canto me arranca outro canto que não morre E vi a luz mais agreste num fundo de madrugada vestir-te da cor da lua despe-te um brilho celeste na febre de ser amada quando amor se insinua Não queiras dizer o nome ao ouvido deste canto só eu sei, e conheço o que esconde este pronome tu de quem fiz riso e pranto amor que lembro, e esqueço Nuno Júdice / João Maria dos Anjos (Fado João Maria dos Anjos)
De quando em vez lá te entregas nesse sim, em que te negas ou nesse não, que me é tanto Não te pergunto os porquês deste amar, de quando em vez ou talvez de vez em quando Quase sempre de fugida como criança escondida nosso amor brinca com o fogo Se queremos dizer adeus porque dizemos meu Deus simplesmente um até logo E o enleio continua à mercê de qualquer lua que nos comanda os sentidos E a paixão que não tem siso deixa-nos sem pré-aviso de corpo e alma despidos Por teimosia, ou loucura algemamos a ventura do amor, em nós, reencarnando Prefiro, como tu vês amar-te de quando em vez ou talvez de vez em quando Mário Raínho / João Maria dos Anjos(Fado João Maria dos Anjos)
Nasci talhado de fado Cresci no tempo a correr Sem direito de sonhar; Não parei no meu passado Fui menino sem saber E condenado a cantar Tive a noite por guarida Deram-me o fado, por pão Por enxerga, a fria rua Cresci á margem da vida Ao lado da solidão Coberto p'la luz da lua Queria voltar a nascer E sonhar um só momento No meu mundo pequenino Passou o tempo a correr Não tive idade nem tempo De brincar e ser menino Mário Raínho / João Maria Dos Anjos
Se o carinho que eu entrego Fosse mais do que um segredo Que eu tenho de guardar Se o meu sonho descoberto Já não fosse tão incerto Saberia o que lhe dar Mas vivendo esta certeza Que sentindo a alma presa Não poderei entender Porque são só desencontros Todos estes meus encontros Que a vida vem oferecer Ao menos tenho comigo O sabor de um grande abrigo Onde vivo o meu desejo Porque esse que não é meu Parece vindo do céu Só para me dar um beijo Mas não quero que o meu medo Seja tanto este negredo Ou que esconda o meu caminho Que eu procuro e não encontro Aquele que li num conto Serás tu... principezinho?
A Estação Das Cerejas Eu hei-de ser das cerejas Da vertigem dos cardumes Do mistério dos pardais; Hei-de ser o que tu sejas Aquilo a que te resumes As orações naturais Eu hei-de ser vento norte Rir-me na cara da morte A dança do colibri Mas hei-de ser do meu peito Desta dor com que me deito Só porque me dói de ti Eu hei-de ser das cerejas Do luar na primavera Labirinto do prazer Hei-de ser o que desejas Que por ti sabes que espera Enquanto a lua quiser Eu hei-de nascer do nada Como a papoila encarnada Que nada fez por nascer Hei-de nascer tua amada Sem uma razão nem nada Mas só porque tem de ser João Monge/ João Maria dos Anjos