É sempre tristonha e ingrata Que se torna a despedida De quem temos amizade Mas se a saudade nos mata Eu quero ter muita vida Para morrer de saudade Dizem que a saudade fere Que importa quem for prudente Chora vivendo encantado É bom que a saudade impere Para termos no presente Recordações do passado É certo que se resiste Á saudade mais austera Que á ternura nos renega Mas não há nada mais triste Que andar-se uma vida á espera Do dia que nunca chega Só lembranças ansiedades O meu coração contém Tornando-me a vida assim Por serem tantas as saudades Eu dou saudades alguém Para ter saudades de mim Carlos Conde e Alfredo Marceneiro (Fado Cravo)
À deriva pela estrada Muito branca e embalada Na cadência dos seus passos Vai uma sombra cansada Tão branca, sem dizer nada Com um fantasma nos braços
Cheia de medo e de frio Entrou no salão vazio Do palácio abandonado O grande tecto ruiu O candelabro caiu Em chamas, o cortinado
No palácio destruído Ficou, no vitral partido Uma sombra a ver-se ao espelho E no chão enegrecido Um fantasma adormecido Sobre o tapete vermelho
Da terra, em volta, queimada Nasce uma rosa encarnada Que ao passar, o vento arranca Pelo vento desfolhada Desfaz-se, branca, na estrada Branca, branca, ah! Tão branca. Manuela de Freitas / Alfredo Marceneiro (Fado Cravo)
Por uma moura guardada Um dia alguém perguntou-me Se a moura que há no meu nome É essa moura encantada Não sei, só sei que me dou E me esqueço de quem sou Como num sono profundo E nos sonhos que vou tendo Eu adivinho e desvendo Todos os sonhos do mundo A minha voz, de repente É a voz de toda a gente De tudo o que a vida tem Quando a noite chega ao fim Vou à procura de mim E não encontro ninguém Não sei se é lenda ou se não Se é encanto ou maldição Que às vezes me pesa tanto Sei que livre ou condenada E sem pensar em mais nada Eu fecho os olhos e canto Serei talvez encantada E sendo assim tudo e nada Eu fecho os olhos e canto Manuela de Freitas / Alfredo Duarte Marceneiro (Fado Cravo)
It is legend in the Mouraria
What great wealth there was
For a saved Moorish
One day someone asked me
If the Moorish man in my name
It's this haunted Moorish
I do not know, I only know that I get
And I forget who I am.
As in a deep sleep
And in the dreams I'm having
I guess and guess
All the dreams of the world
My voice suddenly
It is the voice of all people
Of all that life has
When the night draws to an end
I'm looking for me
And I can not find anyone.
I do not know if it's a legend or not
Whether it's charm or curse
That sometimes weighs me down so much
I know that free or doomed
And without thinking of anything else
I close my eyes and I sing
I'll be delighted
And being thus all and nothing
I close my eyes and I sing
Manuela de Freitas / Alfredo Duarte Marceneiro (Fado Cravo)
Que destino, ou maldição Manda em nós, meu coração? Um do outro assim perdido Somos dois gritos calados Dois fados desencontrados Dois amantes desunidos Por ti sofro e vou morrendo Não te encontro, nem te entendo Amo e odeio sem razão: Coração... Quando te cansas Das nossas mortas esperanças Quando paras, coração? Nesta luta, esta agonia Canto e choro de alegria Sou feliz e desgraçada Que sina a tua, meu peito Que nunca estás satisfeito Que dás tudo... E não tens nada Na gelada solidão Que tu me dás coração Não há vida nem há morte É lucidez, desatino De ler no próprio destino Sem poder mudar-lhe a sorte... Armando Vieira Pinto / Alfredo Marceneiro (Fado Cravo)
Numa delas, dei com ela E quedei-me enfeitiçado Sob a luz dum candeeiro Estava ali o fado inteiro Pois toda ela era fado
Arvorei um ar gingão Um certo ar fadistão Que qualquer homem assume E confesso que aguardei Quando por ela passei O convite do costume
Em vez disso, no entanto No seu rosto só vi pranto Só vi desgosto e descrença Fui-me embora amargurado Era fado, mas o fado Não é sempre o que se pensa
Ainda recordo agora A visão, que ao ir-me embora Guardei da mulher perdida A pena que me desgarra Só me lembra uma guitarra A chorar penas da vida
Guilherme Pereira da Rosa / Alfredo Marceneiro (Fado Cravo)