Contemplo o que não vejo. É tarde, é quase escuro. Quanto em mim desejo Está parado ante o muro. Por cima o céu é grande; Sinto árvores além; Embora o vento abrande, Há folhas em vaivém. Tudo é do outro lado, No que há e no que penso. Nem há ramo agitado Que o céu não seja imenso. Confunde-se o que existe Com o que durmo e sou. Não sinto, não sou triste. Mas triste é o que estou. Fernando Pessoa/Armando Augusto Freire(Fado Alexandrino)
Lisboa mora aqui /
Na rua do meu fado
Nos becos do meu peito /
Arma paredes meias
Lisboa mora aqui /
Poema consumado
E seu rio prefeito /
Pulsa nas minhas veias
Lisboa mora aqui
E as portas da cidade
Abrem-se á voz que sou
Com a chave duma rima;
Lisboa mora aqui
E sente-se á vontade
Nos versos que lhe dou
Que mais nos aproxima
Lisboa mora aqui /
Canta em desassossego
Com lábios de cetim /
Da cor do coração
Lisboa mora aqui /
Na alma em aconchego
Lisboa mora em mim /
Ninguém me diga que não Mário Raínho / Martinho D'assunção (Fado Alexandrino)
Não são palavras vãs, A carta que te deixo Dizendo que me vou, Pra nunca mais voltar Ao morderes a maçã, Tu perdeste o meu beijo Já abraços não dou, A carta há de chegar
Nem vou esperar por ti, As malas estão à porta Só me resta ir embora, A história chega ao fim Se esqueceres que existi, Não julgues que me importa O homem que és agora, Já não presta para mim
São tudo coisas minhas, Aquelas que hoje levo -- As mágoas e as penas Não tas posso deixar. Entre as ervas daninhas, Se encontrares o meu trevo, Tem três folhas apenas E só me deu azar. Maria do Rosário Pedreira / Joaquim Campos (Fado Alexandrino Joaquim Campos)